segunda-feira, 18 de julho de 2016

COBRINDO A QUEDA DE UM MURO – G.L.



Vamos falar da minha primeira viagem internacional. Tudo bem. Não foi tão longe. Fui comprar roupas em Rivera, no Uruguai. Vamos falar da minha segunda viagem internacional. Foi em 1989. Meu objetivo era cobrir os protestos pela queda do muro de Berlim. O maior protesto foi no dia 4 de novembro e me mandaram apenas no dia 8 (o jornal que eu trabalhava na época não era grande coisa). Além disso, exatamente neste mês, o jornalista internacional Bernardo Checkin fora encontrado na Tanzânia, com pneumonia. Ele havia sido visto em imagens iranianas, no funeral do Ayatolá Khomeini, em junho, sendo que ele estava três dias antes na China, cobrindo os protestos de estudantes, sendo este último seu trabalho original. Doente e longe da Europa, Checkin mal podia levantar uma pálpebra (seu colega de quarto no hospital via TV o tempo inteiro). Então, lá fui eu novamente. Sorte que tinha um passaporte e um guia de alemão. Não sabia se entenderiam meu inglês, pois nem mesmo os ingleses entenderiam.
Eu estava atrás do “Berliner Mauer”. Tudo o que queriam os alemães, tanto comunista “democráticos” quanto capitalistas “federalistas” era a unificação. E eu, queria apenas um hambúrguer alemão (de graça, pois estava com o dinheiro contado). Depois de um anúncio na TV, a qual eu tive que assistir na rua, pois o hotel ficava no lado Lenin da força, os alemães foram “liberar as passagens” na marra. Alguns carregavam marretas, não biônicas, o que significava que o muro viria abaixo. E veio. Na minha perna.
Antes disso, entrevistei uma alemã, pela linguagem universal de sinais (que na verdade nem quem sabe um pouco de LIBRAS me entenderia), e ela me disse que estava feliz por poder ir e vir na própria cidade, no próprio país. Logo após, ela despareceu na multidão, que cantava o hino da Alemanha, ou pelo menos parecia. Em pouco tempo, com o muro tomado pelo povo e sem os guardas que o mantinham, o paredão vinha abaixo. Apesar das imagens da TV não mostrarem, o primeiro pedaço do muro caiu na minha frente. Que emoção! Ao menos até chegar tão próximo de mim que atingira minha perna. Naquele momento, comecei a perceber que um muro não era tão mal assim. Veja só o muro das lamentações? Mas já era tarde. Eu acabei não vendo todo o espetáculo. Mas senti na pele o fardo que aquele muro representava. Literalmente.

Os alemães, sem muita preocupação, me deixaram em um hospital da Alemanha Ocidental. Era melhor que meu hotel. Eu estava bem apesar do susto. Mas assim como Checkin, mal podia abrir meus olhos: naquela Alemanha os hospitais tinham TV nos quartos.




domingo, 17 de julho de 2016

SEXTA-FEIRA 13º – T.M.



Sim, lá estava Bob esperando seu 13º. Lá estava mais uma miséria. Bob tinha que sustentar um orfanato trabalhando duro em uma loja de sapatos. E a moda agora era usar chinelos. Chinelos da alta sociedade, chinelos de time de futebol, chinelos social, chinelo casual, chinelos de banho, chinelos de trabalho. E, bem por isso, a loja de chinelos estava faturando tudo, e a de sapatos, nada (a idéia era de que a loja de sapatos também vendesse chinelos, mas isso ia de contra aos padrões deste conto)... Mas Bob sabia que não ia ser demitido, pois trabalhava na empresa há 13 anos, nunca se atrasou e tão pouco roubou dinheiro do caixa. Ou seja: a miséria ainda valia a pena.
Para sustentar 13 crianças, Bob ainda vendia camisetas de "Não use drogas!", doadas gratuitamente por uma instituição do ramo. E vendia caro, o esperto.
Bem... Foi naquela sexta-feira, 13 de dezembro, as 13hs da tarde, o chefe de Bob, conhecido como Don Ruan, rei dos sapatos e galanteios, fez a seguinte proposta:
- Servo maldito! O que preferes? Ganhar seu salário mixuruca agora ou ganhar uma comissão extra por uma entrega, adjunto? Estou certo que vale a pena...
- Sim, vossa majestade, quero fazer essa entrega!
- Pois bem. Aqui está o endereço e as caixas de sapato do tipo "Panquecas".
Quero que entregue antes da meia-noite! Huahuahuahuahuahuahua! - disse o safado, rindo.
- Me dê essas caixas, velho! - irritou-se Bob, que fez cara de poucos inimigos a uma senhora que passava pela rua.
Bob colocou as 20 caixas na parte de trás de seu Fiat 147 velho em folha. E antes que os amigos da loja ajudassem a empurrar a carroça, Bob fitou o endereço: Rua Sexta, 13 - Bairro Bem Mal-assombrado/Rocktown.
- Mas onde fica isso? - perguntou para seu espelho.
Logo o GPS foi acionado. Mas nada. Bob teve que parar seu veículo em uma Lan House. Era uma daquelas na beira da estrada. Tinha um senhor, parecido com o Spectro Man, que fez o cadastro de Bob, que se auto-apelidou de Freak.
- Como é que se escreve? Frik? Freek? Werick? Maverick? Rick? Mickey? Dick (Moe)?
- Não! Eu disse Freak!
Sim, lá estava Bob usando o site de busca e apreensão. Ele não achou Rocktown nos mapas, mas achou uma história sobre onde ficava (estava na Desciclopédia). Ficava entre Oiapope e Chuí. Ou seja, tudo indicava que ficava na Área 51, entre a 52 e 50. Próximo ao Acre. Lá estava Bob na estrada novamente.
- Tchau, Brik! - disse o dono da Lan.
- É Freak! - respondeu Bob.
- Foi o que eu disse, Hick.
Bob estava exausto. Queria entregar logo aqueles sapatos. Para isso, teve que aumentar a velocidade de 20km/h para 60km/h. Isso fez com que a caixas de sapato se movessem alguns centímetros.
O vendedor de sapatos parou logo em seguida. Havia uma placa. Contudo, estava toda amassada. Teve que parar o carro e conferir o que estava escrito. Sim, lá estava escrito Rocktown. Pensou consigo que aquela cidade poderia ser detestada pelos motoristas. Só que Bob avistou a trilha que o acidentado fez, pois não havia muitos destroços por ali. Como não tinha nada a perder (apenas sapatos), percorreu com seu carro toda a extensão da trilha formada pelo carro. Ao descer um tanto, observou o veículo do acidente: um carro legal. Não havia nenhum escritor dentro, tão pouco pegadas de enfermeira psicótica por perto. Então, pensou em coisas do além, mas resolveu seguir a trilha na mata.
Sim, lá estava Bob diante de prédios e edifícios que nenhum ser humano podia ver em qualquer horizonte. Muito menos em uma zona rural como aquelas. Bob, enquanto manobrava seu 147, admirava também que esta cidade não tinha pessoas, diferentes de muita gente no mundo, que não tem prédios. E como se tudo fosse controlado por controle remoto, mesmo sendo pouco mais de 13hs, a noite caiu. E a casa também.
O garoto parou seu carro. Estava exatamente na rua e no número da entrega: Rua Sexta, 13. Era um prédio de (8 deitado) andares. Só que ele mal entrou e viu seus clientes, eram três homens de sobretudo verde marca-texto. Usavam também luvas laranjas e chapéus de Cowboy. Um deles disse:
- Traga os sapatos!
Bob correu até o carro e pegou metade das caixas. E lá dentro dois deles sentavam e colocavam os pés para fora. Ao experimentarem e gostarem das 'panquecas', um deles, que parecia ser o cacique, disse:
- Era isso mesmo, meu chapa. Vou pegar sua comissão!
Ele abriu uma maleta e pegou um tranquilizante. Na cara dura! Bob virou-se para correr, mas lá estava Don Ruan, que lhe acertou com um bastão de beisebol. Logo, além de sedado, estava galeado (na cabeça).
Sim, Bob agora era acordado por Spears, John Spears. O verdadeiro dono do carro acidentado e da história escrita para seu próximo livro, onde ele mata a personagem principal (a contragosto de certas enfermeiras psicopatas). E junto dele estava Britney Lennon, uma mocinha que parecia esperta. E era, de fato. Os dois explicaram o velho blábláblá, que não conseguiam sair dali e tudo mais. Porém, Bob acrescentou que antes de levar a pancada na cabeça, percebeu se tratar de seu chefe Don Ruan, o patife que o acertou. Ou seja: depois dos sujeitos de verde, agora tinha o sapateiro conquistador.
Antes de tudo, de pensar nos braços picados e nas pessoas que deveriam estar ali, procuraram o primeiro lugar onde houvesse comida. Havia fome de verdade. E vontade de sair daquilo. Eles pareciam os três mosqueteiros sem as espadas. Eram formigas dentro de um mundo de pedra.

Os três caminharam juntos. Era perigoso demais se separar naquela 'ilusão concreta'. Uma cidade feita de pedra e esculpida por vultos. Gigante pela própria natureza, mas não tão risonha e límpida (nem a imagem do Cruzeiro tinha no céu...). Por mais que caminhassem, mais distante estavam de sair dali. Então, sendo mais realístico possível, de fato, havia uma chance de escapar! E essa chance você verá no próximo programa, nessa mesma hora e nessa mesma coletânea. Sim, esse é o fim (desse conto, por enquanto).




sábado, 16 de julho de 2016

AMOR E PAIXÃO – L.B.



Recebo cartas diariamente. Algumas são boletos, a maioria atrasados. Mas não são desses que falarei. São daqueles corações sedentos por baboseiras prolixas.  E nisso eu sou bom. Uma dessas cartas dizia: “Meu caro, amo meu namorado, desde o momento que eu o conheci. Mas agora não o amo mais. Foi paixão?”. Deixa-me entender: ama e não ama mais? O amor é confuso, às vezes. Mas não a ponto de me fazer perder tempo. Como a maioria das pessoas não sabe a diferença entre paixão e amor, eu irei decodificar, em prosa e verso, como Lord Byron e Martinho da Vila:

Amar está mais para o eterno,
Paixão é nômade,
Quer-nos por uma noite,
Às vezes me apaixono por quem amo,
Outras vezes amo algum apaixonado,
Pois o amor fica e a paixão vai,
Mas amar apaixona,
A paixão parece amor,
Paixão é confusão,
Como fone de ouvido enrolado,
Amor é simples,
Como descascar uma bergamota,
Não ame um apaixonado,
Ele pode estar amando,
Não se apaixone por um amador,
Pois já nos bastam os deputados,
Apaixonar-se por alguém é um mal,
Mas às vezes o amor cura,
Apaixonar-se por artistas de TV é uma doença,
Mas às vezes a terapia cura,
Sei que paixão é passageira,
Mas o amor sempre será o motorista,
Sei que amor é chiclete,
Mas a paixão é sorvete
 (Ela derrete com o calor dos suspiros),
Enfim, amor é pedra, a paixão aerolito,
O amor e a paixão podem estar juntos, mas se separam,
- Você é meu amor (paixão)! – engana-se o rapaz.
- Prefiro o meu tablet (amor)! – sentencia a rapariga.




sexta-feira, 15 de julho de 2016

EXPLICANDO MARX – J.G.



A pior coisa para um intelectual como eu é ter de explicar, e provar, quanto é um mais um. Todos sabem o resultado, mas sempre há um conservador que não acredita. Pois bem, vou explicar o livro do nosso querido Marx, “O Capital”, o melhor livro já escrito, juntamente com as receitas da Dona Benta e o guia da TV.
Primeiramente, queria separar aqueles que entendem de economia daqueles que leem o Jornal do Comércio, como faz O Moralista. O que é custo? Produção? Salários? Dinheiro? Oferta? Preço? Valor? Pechincha? Barganha? Calote? Fiado? Migué? Tudo isso são termos comuns que economistas deveriam saber de cor, e não apenas, como os leigos pensam, de guardar moedas no cofrinho.
Marx, esse gênio incompreendido por bobalhões, explicou que, quando se aumenta a produção, devem-se aumentar também os salários proporcionalmente. Errado, patifes. O aumento deve ser maior dos salários do que a produção. Pois quem trabalha merece ser premiado.  Economistas contemporâneos de Karl, tais como o tio Patinhas e o pai do Chris Rock, defendiam que, com o tempo, não haveria mais produção, apenas salários, e tudo seria feliz para sempre. Capitalistas, no entanto, dizem ser isso uma teoria.
Daí vem às falácias: Stalin pra cá, Coreia do Norte pra lá, genocídios, biriri-bororó.  Vejam bem, seus canalhas, vou explicar como é a teoria e como ela deve ser praticada.
Marx, este ser supremo das camadas populares da nobreza, disse que o trabalhador vende sua alma ao capeta, digo, capitalista, pelo valor proporcional à sua produção.  Suponhamos: se um cavalo come uma tonelada de milho no café da manhã, isso deveria ser suficiente para que carregasse uma tonelada de pessoas em seu lombo, caso o alfaiate trabalhasse 14 horas do seu dia na fábrica de enlatados. Ao passo que se o produtor de café gera empregos para um uma dezena de trabalhadores que, em troca, usam o dinheiro para comprar o mesmo café por eles produzido, pois cafeína é um vicio satânico, seria como trocar 6 por meia dúzia e achar que era três mais três. Apesar de parecer simples, o conceito de “valor” e “matéria-prima” se perde em meio à mais-valia, conceito utilizado normalmente quando vamos à feira e pegamos apenas aquilo que não está na promoção.
Matematicamente, Marx quis demonstrar que o fatorial da oferta e demanda é o produto da soma de dois termos, elevado à integral de linha da força de trabalho, dividido pela raiz da mercadoria produzida elevado a derivada do limite do logaritmo do dinheiro vezes o custo e demanda menos o material empregado na produção e o imposto sindical. Viram? Sem o imposto sindical, nada seríamos.

Há muito que se debater quanto ao real valor do trabalho. E é claro que eu tenho propriedade para falar sobre o trabalho. Só quem observa é que sabe. Por isso é que um mais um é igual a três.




quinta-feira, 14 de julho de 2016

CARTA DE UM AMIGO – M.



Apesar do título, essa carta eu achei no lixo. Há muito tempo, achei livros velhos de Direito jogados na rua (detesto quando vejo livros jogados nas ruas, é como se conhecimento fosse lixo). É claro que nunca faria Direito, apenas andaria com os livros para denotar certo “grau superior”. Ou talvez eles ajudassem a apoiar minha mesa de centro cuja perna está quebrada.
Dentro de um livro de direitos do trabalhador, encontrei uma carta, vindo de um remetente, o qual chamarei de “Dilma”, e um destinatário, que chamarei de “Aécio”, apenas para preservar os nomes verdadeiros utilizando nomes totalmente isentos de qualquer elucidação.
Pois bem, ei-la.
Querido Aécio,
Quero nessas humildes palavras agradecer tudo o que passamos juntos. Todos aqueles momentos foram mágicos, para não dizer fantásticos. Sempre sonhei com dias assim, e com você tudo se realizou. Desde que te conheci, na faculdade de ergonomia, me postei melhor. Agora sou uma mulher realizada, e posso expressar isso sem um mínimo de vergonha na minha cara bochechuda.
Lembra-se daquele passeio que demos pelos corredores de mãos dadas e, sem querer, dêmos uma rasteira da professora de judô? Nunca vou esquecer as pancadas que você levou por mim! Foi incrível. Acho que é amor...
Suspiro quando me lembro dos nossos piqueniques na grama do campus, das festas da faculdade e das aulas chatas de física quântica em que você, sempre compreensível, as tornava mais agradáveis quando atirava bolinhas no professor.
Sinto falta do refeitório universitário, das formaturas, das reuniões de medicina e dos levantamentos topográficos nos campos de futebol! Sinto falta dos lanches gratuitos que você me proporcionava truculentamente! E do nosso lema: “Quando vejo que estou passando dos limites, continuo pra ver até onde vai dar. Só não sinto falta daquele último dia.
Nunca vou esquecer, mesmo com muito pesar, daquele dia 13 de dezembro de 1973. Quando a polícia descobriu que estávamos frequentando a universidade sem termos sido aprovados em nenhum curso. Raios! Como podem fazer isso conosco? Na verdade, eu sabia de tudo, peço-lhe desculpas por não te dizer que nós não podíamos estar ali. Mas hoje, 10 anos depois, reconheço que não fizemos a coisa certa. Ainda acho que não deveríamos ter apedrejado o laboratório de química, que desencadeou aquele incêndio e destruiu dois prédios inteiros do complexo...
Não se preocupe, pois dentro de 25 anos estará em liberdade! Sei que não foram fáceis todos esses anos na cadeia, mas saiba que sempre te admirei pelo seu ato de ter assumido a culpa sozinho! Sei que houve rebeliões e que você foi o único que não fugiu, fiquei orgulhosa! Sempre soube que era honesto. Ainda não entendi o motivo de você ir para uma penitenciária de segurança máxima logo após, mas deve ser bom, pois lá você estará ainda mais seguro.
Sei que não tenho escrito muitas cartas, essa na verdade é a primeira. Desde então, me casei. Espero não ficar irritado, sei que prometi que casaríamos depois de 35 anos separados, mas no quinto dia útil após sua prisão resolvi me casar, pois o tempo demorava a passar. Tenho cinco filhos, de seis casamentos. Hoje vivo de pensões, mas já trabalhei alguns dias.
Apesar disso, ainda aguardo ansiosamente pelo seu retorno. Sei que ainda temos muito em comum, e que mesmo depois de 35 anos ainda poderíamos recomeçar de onde paramos. Visitar o campus, pegar uns livros na biblioteca ou assistir aulas de biologia e astronomia, usar os banheiros sem dar descarga, sei lá.
Sinto sua falta, Aécio. Sinto falta de dinheiro também, mas isso todo mundo sente. A não ser os vendedores de algodão doce! Eu compro todo dia! Eles devem estar montados na grana! Quem sabe eu não case com um vendedor de algodão doce? Acho que ainda dá tempo, faltam 25 anos para sua saída da prisão...
Enfim, sinto sua falta. Apenas me procure naquela mesma casa da árvore de 10 anos atrás, ainda estou lá.
Com saudades,
Dilma”
Dentro do mesmo livro, encontrei o diploma do “Aécio”, ele saiu da cadeia em 2008 e formou-se em Direito em 2013. Processou “Dilma” em 2015, e pediu sua retirada da casa de árvore, mas não ganhou.
Peguei o endereço da tal casa da árvore e fui até lá. Pasmem, os dois haviam voltado. Estavam novamente na ativa. Soube quando os vi correndo vindo do campus. Eles tinham a mesma idade: 80 anos.
Amizade é isso. Destruir o físico para construir o moral. Ou algo assim.





Nota: O lema destacado é uma frase de autoria do Moralista, mesmo que ele não tivesse nascido ainda em 1983, pois, levando-se em conta que ‘achado não é roubado’, a carta estava no lixo.





quarta-feira, 13 de julho de 2016

RECOLOCAÇÃO SOCIAL FORÇADA – C.L.



Depois da minha última coluna “Não gosto de preconceito”, voltei a sofrer preconceito. Dos leitores, como sempre (que considero inveja) e dos meus “chefes” (que publicam essa coluna no jornal de araque). Como não sou boba, e essa graninha me ajuda na compra de chapéus em Miami, optei pela “retratação”. É isso mesmo, “retratar”.
Eu me considero na classe “B”, que chamamos de “a um passo do paraíso”. Mas de agora em diante falarei como se fosse de classe “C”. Falarei sobre morar em 38 m², sobre levar marmita, perguntar o preço antes de comprar ou pegar ônibus todos os dias, mesmo com ar-condicionado e no horário. Mas, como? Nunca passei por tais constrangimentos! Seria como um integrante do partido comunista acumular bens, andar de carro importado de países capitalistas, e por ai vai.
Tive que ter aulas com a minha empregada, a Claudiármen (Pai Claudio + Mãe Carmen, “pasmem”...) e o jardineiro Josefir. Eles são pessoas humildes, não dominam o próprio idioma, mas levam um sorriso no semblante apesar de serem miseráveis e deprimentes.
A empregada têm três filhos, e ainda é separada. Muitos ditos afirmam que isto é digno de pena. É uma pena, digo então. Mas ai dela que não limpe as janelas!
O jardineiro não sabe muito sobre bons costumes, pois canta enquanto trabalha (ou trabalha enquanto canta) e seu repertório vai de sertanejo universitário a forró pós-graduado. Não posso reclamar, pois seu trabalho é bem feito (não levem isso como um elogio, pois é mérito do síndico, que é desembargador classe “B+”).
Posso ainda falar dos atendentes do mercado, que dizem trabalhar demais e ganham pouco. Como se eles tivessem escolha né? Trabalhem, por isso estou comprando ai! Ou então é rua! Sem choradeira! Mas são honestos e tudo mais. Há alguns pedintes na saída do mercado, mas convenhamos: classe “E” já é forçar demais!
Acho que está bom assim. Ufa! Falar da classe “C” dá trabalho! Mas aprendi uma grande lição com essa árdua missão: é melhor escrever do que ser. Trabalhar lhe tira o tempo de pensar. Isso é bom para se esquecer da letra “C”. Mas enquanto olho a Claudiármen limpar a minha mesa onde escrevo (e me atrapalhar como sempre), sempre me lembrarei da letra “B”. Se a história da sociedade sem baseia na luta de classes, como disse Marx, ao menos eu luto com classe, meninas.

- Cuidado com meus Château Mouton-Rothschild sua mentecapta! – alertei a Claudiármen. Com educação classe “B”, é claro.


terça-feira, 12 de julho de 2016

O MEU GRANDE EMPREGO – G.L.



Esses dias eu estava de boa no escritório, escrevendo mais uma das minhas bobagens, quando, num ato inédito (mentira), parei um pouco. Pensei, pensei e pensei: meu emprego é uma farsa! Estou aqui sentado na frente de um computador, digitando letras para que outros, que também estão na frente do computador (ou Tablet, iPad, Celular, mictório), leiam. Já imaginou se, em algum dia, eu usar o banheiro e vir digitar com as mãos sujas? Tudo bem que os leitores já estão acostumados a ler porcarias, mas isso não pareceria mais literal?
Pois bem, é isso.
Pergunto-me: eu teria a mesma paciência dos meus leitores para me ler? Será que reservaria meu tempo para ler isso que estou acabando de escrever?
Algumas situações práticas, por exemplo: um lenhador, contratado para devastar um bosque, de repente, para. Está cansado de dar machadadas em troncos. Ele pensa: "Estou a fim de ler uma porcaria de texto neste momento". Pimba! Alguém largou de mão sua atividade para me ler. Isso talvez possa ser comum em situações que envolvam tarefas repetitivas. Como o Charlie Chaplin, no filme "Tempos Modernos". Está certo que naquela época, se você parasse de apertar parafusos, vinha imediatamente um brigadiano e descia o sarrafo no teu lombo. Mas e hoje? Um rapaz, que trabalha na linha de produção de materiais reciclados, "do nada", para sua produção e pensa: "Vou deixar de transformar porcarias em coisas boas e tentar entender essas porcarias". Pimba de novo! Lá está mais um na frente de um computador lendo essas coisas aqui.
Já pensaram (isso mesmo, no plural, já que "há" um lenhador e um reciclador me lendo) se o FBI estiver lendo meus textos? Tipo, pesquisando para ver se não estou planejando um atentado à Disney? Imaginem, por exemplo, se Brad Hanks, um novato recém contratado da agência inicia seu trabalho pensando: "Quero começar com o pé direito, vou achar logo um mentecapto que quer explodir a Casa Branca!" e, começando sua busca, ele cai exatamente aqui, como quando um beija-flor aterrissa em solo procurando uma flor, mas cai diretamente na câmara dos deputados em Brasília? Provavelmente ele desistirá do emprego e irá seguir na carreira de motoboy de loja de R$1,99. Frustante não acham?

O jeito é continuar escrevendo. Vai que um dia eu escreva algo útil? Assim, quando um lenhador, reciclador ou o próprio FBI poderão pensar: "hm, interessante".


segunda-feira, 11 de julho de 2016

NOVELA DAS 8 – T.M.



Altemiro está prestes a beijar Jucelina. Quando o infeliz do diretor grita: Corta! A atriz quase atira seu tamanco no velho, que está bravo com sabe-se lá o que. Altemiro não tem expressão, mais do que o normal. Todos os produtores estão felizes com a novela. Tudo saiu como planejado. O episódio iria ao ar na semana que vem, e a audiência estava crescendo tanto que mal podiam esperar pelos próximos capítulos (fãs incondicionais invadiram o estúdio no dia anterior e fizeram Marie, a atriz que interpreta Jucelina, refém e para libertá-la, queriam em troca ver os próximos episódios inéditos).
Mas aos poucos Marie ia se recuperando desses episódios (de gravação e de sequestro). Ela saiu naquele fim de tarde com seu colega de profissão, Alfred, que tinha nome e aparência de mordomo, mas na novela interpretava um mendigo cleptomaníaco. Os dois iriam pegar o trem para Scalibur Ville. A estação em Liberty City estava completamente vazia. Apenas zumbis e lobisomens estavam esperando o trem. Mas algo estava mais estranho do que isso: O mapa indicava uma outra cidade antes do destino deles, mas não era possível ler o nome.
Mas isso não existia antes daquele momento.
Marie pediu para o Alfred perguntar à um dos lobisomens. Ele perguntou mas eles não sabiam, logo foi até os zumbis, mas também nada. Irritado, Alfred disse que um dos lobisomens havia chamado um zumbi de Roberto Marinho. Todos os zumbis se ofenderam brutalmente, e partiram para a ignorância. Houve muita confusão até a polícia chegar. Todos foram levados para a delegacia e só saíram de lá com pagamento de propina. Marie e Alfred já estavam no trem nessas alturas...
Marie estava aflita. Nunca tinha visto aquela cidade entre as duas que conhecia. Seria um erro gráfico? Ou apenas um engano na leitura?
- Estou com medo, Alfred! - confessou a mocinha.
- Não fique, querida. Logo passaremos por isso e estaremos em casa para assistir a próxima temporada de Lost.
- Assim espero...
Após uma seção escura no trem, houve um clarão na mata iluminado pela lua, e mais adiante por alguns refletores. Ali estava escrito o nome da cidade: Rocktown.
Algumas casinhas foram aparecendo e conforme a noite avançava, prédios brotavam da terra e tocavam o céu. Alfred não demonstrava nem um pouco de susto ou apreensão. Ou já conhecia tais mistérios ou quem sabe era um E.T. muito familiarizado. Já Marie estava com tanto medo que mal sabia o que estava fazendo naquele trem. Sua casa era tão modesta que não parecia estar na próxima estação, pois era difícil imaginar isso frente a quantidade de prédios imensos ali presentes. Está certo que havia uma vaca pastando no asfalto, mas fora isso, tudo era urbano demais.
O trem estacionou na estação. Marie esperou. Mas depois de muito tempo parado, percebeu que a locomotiva não iria arredar pé dali. Então tomou a liberdade de dar uma voadora na porta e quebrar tudo para sair dali imediatamente. Alfred não se moveu. A moça passou pela parte de vidro. Um instante depois, a porta abriu, com os dizeres na caixa de som:
- Bem vindo à estação Rocktown, desembarque permitido.
Aí sim, Alfred saiu.
As portas se fecharam rapidamente e o trem saiu a milhão. Bah, tinha que ver... Só que na verdade, não era bem a estação desejada por Marie, tão pouco por Alfred. Sim, o pesadelo começa a tomar forma...
Ela parecia saber que isso iria acontecer, então estava agora mais curiosa por Rocktown, a cidade noturna.
Saindo da estação ela se depara com ninguém. Ou seja, nem se depara. Toma a liberdade de sair e procurar alguém. Mas é difícil, pois alguns postes estão com uma iluminação péssima, e guaipecas não saem do pé de Marie. Ela só percebeu que tinha pisado na bosta quando tentou espantar os cuscos... Alfred riu de canto. Riu riu chiu.
Os dois entraram em um bar com show ao vivo. Mas não havia alguma alma penada tão pouco desalmada. Contudo, para o susto de Alfred (Marie já estava gostando da situação), um velho surge de trás do balcão. Ele se parece com aquele velho da fase dos chineizinhos do Hitman. Bem... Os dois foram até o velho porta-teia-de-aranha e fizeram a pergunta que não queria calar:
- Tem Coca?
- Não. Só Pepis...
- Me vê dois drinques de Pepis.
Eles se sentaram em uma mesa. O bar era bem elegante até... Lembra aqueles restaurantes que chegam a acumular pessoas fora esperando sua vez. Mas nada disso estava acontecendo realmente. E havia um show, pelo menos era o que dizia o cartaz lá fora.
- Não acha uma boa idéia perguntar aquele velho onde estamos?
- Sim, mas ele me parece alguém que eu conheço... Mê dê um instante.
Alfred começa a encarar o velho teioso. E o teioso não vira o rosto. Os dois se olham por tanto tempo que parecem ter se apaixonado ao contrário. O velho caminha para o lado e, como não olha para frente, tropeça e cai, quebrando alguns copos. Ele levanta e se recompõe rapidamente, voltando a encarar Alfred.
- Ei, moço, onde estão as Pepsis?
- Já estará quentinho e crocante na sua mesa, senhorita! - disse o velho louco.
As luzes se apagam no bar. E refletores apontam para o palco. Sim, haveria um show, de fato. Marie só queria saber se seria 'Os fantasmas da ópera'.
Na porta, três homens com sobretudo verde marca-texto entram sem fazer muito barulho. Mas não conseguem deixar de chamarem a atenção, devido a cor do sobretudo. Alfred não tira o olho do velho teioso. E Marie não sabe mais para onde olhar.
Lá no palco, uma cantora loira e velha, e um tanto mais para lá do que pra cá, canta o hino nacional numa versão nada convencional.
Marie não sabe o que fazer, mesmo ainda achando tudo muito divertido. Não era para menos, a menina tinha lá seus 32 anos e estava curtindo a mocidade. E Alfred era um garotinho de 55 anos. Estava na flor da puberdade avançada.
O velho finalmente trouxe o refrigerante (refri pros gaudérios). Isso depois de ter trazido dois copos de vinagre e depois duas xícaras de bicabornato de sódio. Mas em nenhum instante desviou o olhar de Alfred (imagine quanto refri ele derramou fora do copo...).
Após os dois beberem, e o hino ser da forma mais horrível cantado, o sono chegou para os dois. Alfred finalmente desviou o olhar do teioso caindo na mesa dormindo. Marie percebeu a farsa do refri, e conseguiu ver os homens de verde-claro chegarem até ela. Depois nada mais aconteceu.
Marie é acordada por Alfred. Ela olhando o colega nessas condições se sentiu dormindo na casa do Batman. Mas na verdade estava apenas no meio da rua. Sentiu a picada de levara no braço esquerdo, e logo o amiguinho Alfred mostrou que também fora picado. Ela se levantou. Seu vestido estava sujo. E as calças de Alfred estavam molhadas.
- Foram os cuscos, eu juro! - disse ele, se retratando.
Eles andaram um tempo, mas estavam exaustos por terem dormido direto no chão. Logo mais à frente, eles encontram uma moça; ela também parece perdida. Identifica-se como Lucy e mostra o cartão de não-monstro.
- Estou nessa cidade faz alguns dias. Nunca amanhece e não acho de jeito nenhum a saída... Estou ficando nervosa...
- Vamos sair daqui, menina, não se preocupe. - amenizou Alfred.
Os três se uniram a foram em busca de ajuda. Mas a cidade estava repleta de pequenas ilusões. A própria cidade era uma delas. À noite também. Mas os cuscos não...









*Cusco, Guaipeca - Cachorro vira-lata, um daqueles que anda atrás de cavalos. Como diz a milonga abaixo de mau tempo, "Me fala que a égua ta prenha, que o porco ta gordo, que o baião ta solto, e a cuscada lá em casa comeu".